MIOPIZAÇÃO NA ESFRL - procurando causas, buscando soluções
A miopia é a desordem visual mais comum entre os jovens e, indiscutivelmente, tem base genética e, portanto tem tendência a ser herdada. Este dado é conhecido desde 2011, quando os cientistas da Universidade Ben-Gurion, no Negueve, Israel, deram a conhecer à comunidade científica o gene LEPREL 1, codificador de uma enzima cuja mutação se relaciona com várias disfunções visuais e oculares, entre elas a miopia.
Por uma razão direta ou indiretamente relacionada com o gene LEPREL 1 , uma mutação neste gene condiciona a normalidade na formação de colagénio, obrigando o globo ocular a alongar. Nessas circunstâncias, a convergência dos feixes de luz que o olho capta não se faz na retina, mas à sua frente, e a imagem que vemos ao longe aparece desfocada no nosso córtex visual.
As alunas Anna Lavrova, Inês Silvério e Sara Jorge, do 12ºC, realizaram um estudo de campo onde pretendiam saber se a expressão do gene LEPREL 1 (ou outros a ele associados) estaria condicionada pelo esforço realizado em exercícios de inteligência como ler, escrever e fazer jogos ou exercícios de estimulação mental. Na Europa, onde a população tem maior acesso à escolaridade, verifica-se uma maior incidência de miopia. E na ESFRL?
Aquelas alunas distribuíram há um mês um inquérito a 136 leirienses que, de forma muito simples, pretendeu avaliar o nível de inteligência do inquirido, a sua idade, a sua graduação míope e os seus hábitos de esforço visual. 78% dos inquiridos revelou um nível de inteligência superior à média e 21% muito superior à média. Observaram que eram os indivíduos sem miopia que revelavam melhores resultados no teste de inteligência. Observaram ainda que 73% dos indivíduos do grupo com idades entre os 19 e os 25 anos eram míopes, sobretudo com uma graduação inferior a 3 dioptrias. No grupo dos 14 aos 18 anos, representativo da ESFRL, 68% dos alunos são baixos míopes. No grupo etário que corresponde aos pais e avós dos alunos da ESFRL, o número de míopes é mais baixo e isso parece não ter relação com o nível de escolarização dos inquiridos ou com o seu índice de esforço visual.
Como explicar estes resultados? Que fatores ambientais estarão, então, a determinar a expressão dos genes implicados na miopia?
Apesar deste estudo se ter efetuado a partir de uma amostragem por conveniência, parece claro que a nossa população caminha num processo de miopização. Assumindo este facto e os resultados obtidos nos inquéritos em Leiria, duas hipóteses foram levantadas pela equipa de alunas: a primeira hipótese (H1) projetada num futuro com o qual teremos que saber viver e a segunda hipótese (H2) projetada num presente onde é possível buscar soluções.
H1: Estará a miopização relacionada com a estimulação do neocórtex associada à escolarização da população portuguesa que se tem vindo a alargar desde as últimas décadas? A estimulação do nosso neocórtex, enquanto lemos e estudamos, poderá condicionar a evolução simultânea do cérebro e do olho nos nossos filhos?
Mak e outros, num artigo em Med Hypotheses, 2006, sugerem que o desenvolvimento da neurocognição (inteligência) expande o neocórtex e isso afeta o crescimento do globo ocular tornando as pessoas míopes, mas o estudo em Leiria não confirma esta hipótese no presente imediato. Haverá, porém, implicações nas gerações futuras? O estudo feito em Leiria não põe de lado esta hipótese.
H2: Estará a miopização relacionada com as experiências visuais vividas dentro de apartamentos, dentro de edifícios e de escolas fechadas, dentro de cidades construídas na vertical, repletas de tecnologias em plataformas onde a necessidade de ver ao longe não se explora?
Torsten Wiesel (neurobiólogo sueco e prémio nobel de fisiologia ou medicina em 1981) e Elio Raviola (professor de neurobiologia no Harvard Medical School, em Boston) concluíram que é a visão que regula o crescimento do olho e que esta regulação se inicia na infância. Assim, a miopia é muito mais uma condição adquirida do que herdada. Expõem num paper, escrito em 1986 e publicado on line em 2013 pela New York Academy of Sciences, intitulado "The mystery of myopia: are bad eyes born or made?" a ideia de que foi na savana africana que os nossos olhos foram desenhados pela genética humana e que esse ambiente, onde o ver ao longe, na linha do horizonte, era essencial à coleta e à caça, é muito diferente daquele em que hoje passamos os nossos dias. Durante horas e horas seguidas, obrigamos os nossos músculos visuais a contrair e é preciso distendê-los para vermos melhor ao longe, para não deixarmos de ver bem ao longe.
O CCC lançou, assim, um repto ao 3º ano do Curso Profissional de Técnico de Design de Interiores e Exteriores, em particular à professora Maria João Vieira, professora da disciplina de Design de Interiores e Exteriores: projetar e construir um parque visual de distensão dos músculos associados à miopização, que possa ser usado pela comunidade educativa da ESFRL.
Mas tu podes começar já a distender os teus músculos visuais!
Hoje podes, por exemplo, contar as estrelas que conseguires ver no céu!:)
Baseado em
Lavrova, A.; Silvério I.; Jorge, S. (2015). "Miopização na ESFRL -- testando a hipótese do gene olho-cérebro"
orientado pela professora de Biologia, coordenadora do Clube da Ciência e do Conhecimento (CCC)












